127 HORAS (127 Hours, EUA/Reino Unido, 2010).
Direção: Danny Boyle.
Com: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Treat Williams. 94min.
O corpo humano é, sem dúvida, impressionante. Mesmo em níveis microbiológicos parece existir um instinto de sobrevivência. Nossas células, por exemplo, dispõem de um mecanismo denominado AUTOFAGIA, segundo o qual organelas intracelulares inúteis são digeridas, evitando, assim, o acúmulo das mesmas. O interessante é que, em condições extremas - uma crise alimentar, por exemplo -, a autofagia pode ser exercida sobre estruturas ainda funcionais: um forte apelo celular para a manutenção da sobrevivência.
E, por falar em sobrevivência, este é o tema-chave de 127 HORAS. Aqui, o enredo é simples: Aron Ralston é um engenheiro que, nas horas vagas, aventura-se pelos cânions americanos do estado de Utah. Numa de suas aventuras, porém, o rapaz sofre um acidente: ao cair num buraco, o jovem fica com um dos braços preso sob uma enorme e pesada rocha. O título do filme refere-se às agonizantes 127 horas que, a partir de então, se sucedem.
Mesmo aqueles que já conhecem o desfecho cruciante de Aron - a produção é baseada em fatos ocorridos em abril de 2003 - impressionam-se com o trabalho de Danny Boyle. Dono de um estilo frenético, o diretor carrega de criatividade o hermético ambiente de seu personagem: a indicação da variação de temperatura na tela nos dá uma idéia das dificuldades enfrentadas por Aron - à noite, o termômetro marca 44°F: 6°C, aproximadamente; a viagem da câmera à bebida isotônica deixada por Aron no carro nos proporciona uma noção da sede sentida pelo rapaz; a sequência do 'talk-show', sob um ponto de vista filosófico, é uma expressão da inventividade humana em situações de estresse.
Criativo como Boyle, A.R. Rahman, responsável pela trilha sonora, experimenta um antagonismo interessantíssimo: em algumas cenas, temos, como pano de fundo, músicas, digamos, dançantes! O resultado é muito bacana. Também digna de nota é, obviamente, a atuação de James Franco, que, inclusive, rendeu-lhe uma indicação ao Oscar de melhor ator - o filme teve mais cinco indicações: melhor filme, melhor roteiro adaptado (do livro Between a rock and a hard place), melhor edição, melhor trilha sonora original e melhor canção original (If I rise).
Um belo registro da irrupção do instinto de sobrevivência do nível celular para um âmbito mais abrangente. 'There is no force on earth more powerful than the will to live.'
quarta-feira, 16 de março de 2011
terça-feira, 1 de março de 2011
Especial!
TROPA DE ELITE 2: O INIMIGO AGORA É OUTRO (Brasil, 2010).
Direção: José Padilha.
Com: Wagner Moura, Irandhir Santos, Maria Ribeiro, Sandro Rocha, André Ramiro, Pedro Van Held, Milhem Cortaz, Tainá Müller. 116 min.
Ano: 2007. Milhares de cópias piratas daquele que viria a ser um dos maiores sucessos do cinema nacional entulhavam as barracas de camelôs de todo o país - estima-se que 11 milhões de pessoas tenham assistido TROPA DE ELITE antes mesmo de sua estréia. Resultado: o filme de José Padilha foi lançado nas telonas às pressas. Ano: 2010. Traumatizado com a experiência de outrora, TROPA DE ELITE 2 é lançado sob um indelével esquema antipirataria - as cópias (cerca de 600, inicialmente), por exemplo, possuíam uma numeração invisível ao olho humano: se houvesse alguma filmagem da tela num cinema, seria possível detectar em que sala teria ocorrido a infração; além disso, as cópias tinham, também, um GPS embutido cuja função era rastrear qualquer tentativa de desvio de rota durante o processo de distribuição Brasil afora.
A meta pessoal de Padilha era fazer com que, no mínimo, 11 milhões de espectadores (repare no significado especial deste número) fossem aos cinemas ver TROPA 2. E, como sabemos, ele conseguiu. O sucesso das novas aventuras do admirável Coronel Nascimento foi tão grande que TROPA 2 é, atualmente, o filme de maior bilheteria da história do cinema no Brasil. A supremacia de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (1976) - até o ano passado, o filme de maior público da história do cinema nacional - acabara. E com justiça.
A seguinte frase de Padilha resume a essência de TROPA 2: 'Não me interesso em fazer um filme que seja só entretenimento.' Fidelíssimo às suas ideologias, o diretor mergulha fundo em complexas questões contemporâneas, que vão desde a corrupção política ao controle das favelas cariocas pelas chamadas milícias. E, no meio deste vórtice, está o glorioso Coronel Nascimento: após um incidente no Complexo Penitenciário de Bangu 1, o policial é promovido a subsecretário de segurança pública do estado do Rio de Janeiro e, durante a sua gestão, o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) é transformado numa potente máquina de guerra. O problema é que, paralelamente, novas lideranças criminosas surgem e, para piorar, estas têm o apoio e a proteção do governo fluminense.
Com efeitos especiais de primeira - alguns membros da equipe técnica trabalharam em produções como, por exemplo, HOMEM DE FERRO e AVATAR -, TROPA 2 é, acima de tudo, e, por incrível que pareça, um filme-cabeça, uma vez que nos incita a refletir profundamente sobre sérios problemas sociais crônicos de nosso país: ao bater de frente com o 'sistema', o Coronel Nascimento parece dar voz a cada um dos brasileiros esquecidos, injustiçados e vítimas do descaso político. Numa sequência em especial, na qual um deputado corrupto é açoitado pelo icônico personagem, o espectador tem a nítida impressão de estar protagonizando a pancadaria.
O roteiro de Bráulio Mantovani, por sua vez, possui, ainda, uma dezena de cenas memoráveis: a tensa sequência de abertura em Bangu 1 (filmada numa imensa réplica do presídio de segurança máxima), a invasão do Tanque (que chegou a amedrontar moradores da favela onde as cenas foram rodadas), o carro do Nascimento sendo fuzilado (Wagner Moura dispensou dublês para a execução do 'Cavalo-de-Pau'), entre outras. Porém, o maior mérito de Bráulio e seus colaboradores foi compreender que uma sequência não deve, necessariamente, conter os mesmos elementos do original (aqui, por exemplo, não há a mesma profusão de bordões do primeiro filme); a franquia , felizmente, optou pela inovação. O amadurecimento é patente. Tanto quanto os cabelos brancos de Nascimento e sua postura encurvada: uma inteligente metáfora que simboliza o peso do fardo carregado pelo personagem de Wagner Moura - e por nós também.
Direção: José Padilha.
Com: Wagner Moura, Irandhir Santos, Maria Ribeiro, Sandro Rocha, André Ramiro, Pedro Van Held, Milhem Cortaz, Tainá Müller. 116 min.
Ano: 2007. Milhares de cópias piratas daquele que viria a ser um dos maiores sucessos do cinema nacional entulhavam as barracas de camelôs de todo o país - estima-se que 11 milhões de pessoas tenham assistido TROPA DE ELITE antes mesmo de sua estréia. Resultado: o filme de José Padilha foi lançado nas telonas às pressas. Ano: 2010. Traumatizado com a experiência de outrora, TROPA DE ELITE 2 é lançado sob um indelével esquema antipirataria - as cópias (cerca de 600, inicialmente), por exemplo, possuíam uma numeração invisível ao olho humano: se houvesse alguma filmagem da tela num cinema, seria possível detectar em que sala teria ocorrido a infração; além disso, as cópias tinham, também, um GPS embutido cuja função era rastrear qualquer tentativa de desvio de rota durante o processo de distribuição Brasil afora.
A meta pessoal de Padilha era fazer com que, no mínimo, 11 milhões de espectadores (repare no significado especial deste número) fossem aos cinemas ver TROPA 2. E, como sabemos, ele conseguiu. O sucesso das novas aventuras do admirável Coronel Nascimento foi tão grande que TROPA 2 é, atualmente, o filme de maior bilheteria da história do cinema no Brasil. A supremacia de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS (1976) - até o ano passado, o filme de maior público da história do cinema nacional - acabara. E com justiça.
A seguinte frase de Padilha resume a essência de TROPA 2: 'Não me interesso em fazer um filme que seja só entretenimento.' Fidelíssimo às suas ideologias, o diretor mergulha fundo em complexas questões contemporâneas, que vão desde a corrupção política ao controle das favelas cariocas pelas chamadas milícias. E, no meio deste vórtice, está o glorioso Coronel Nascimento: após um incidente no Complexo Penitenciário de Bangu 1, o policial é promovido a subsecretário de segurança pública do estado do Rio de Janeiro e, durante a sua gestão, o BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) é transformado numa potente máquina de guerra. O problema é que, paralelamente, novas lideranças criminosas surgem e, para piorar, estas têm o apoio e a proteção do governo fluminense.
Com efeitos especiais de primeira - alguns membros da equipe técnica trabalharam em produções como, por exemplo, HOMEM DE FERRO e AVATAR -, TROPA 2 é, acima de tudo, e, por incrível que pareça, um filme-cabeça, uma vez que nos incita a refletir profundamente sobre sérios problemas sociais crônicos de nosso país: ao bater de frente com o 'sistema', o Coronel Nascimento parece dar voz a cada um dos brasileiros esquecidos, injustiçados e vítimas do descaso político. Numa sequência em especial, na qual um deputado corrupto é açoitado pelo icônico personagem, o espectador tem a nítida impressão de estar protagonizando a pancadaria.
O roteiro de Bráulio Mantovani, por sua vez, possui, ainda, uma dezena de cenas memoráveis: a tensa sequência de abertura em Bangu 1 (filmada numa imensa réplica do presídio de segurança máxima), a invasão do Tanque (que chegou a amedrontar moradores da favela onde as cenas foram rodadas), o carro do Nascimento sendo fuzilado (Wagner Moura dispensou dublês para a execução do 'Cavalo-de-Pau'), entre outras. Porém, o maior mérito de Bráulio e seus colaboradores foi compreender que uma sequência não deve, necessariamente, conter os mesmos elementos do original (aqui, por exemplo, não há a mesma profusão de bordões do primeiro filme); a franquia , felizmente, optou pela inovação. O amadurecimento é patente. Tanto quanto os cabelos brancos de Nascimento e sua postura encurvada: uma inteligente metáfora que simboliza o peso do fardo carregado pelo personagem de Wagner Moura - e por nós também.
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Crítica do dia!
TEMPLE GRANDIN (Idem, 2010).
Direção: Mick Johnson.
Com: Claire Danes, Catherine O´Hara, Julia Ormond, David Strathairn, Charles Baker. 108 min.
Geralmente, as histórias sobre pessoas bem-sucedidas em ambientes completamente desfavoráveis rendem bons filmes. Alguns deles, no entanto, acabam apelando para um sentimentalismo excessivo, o que acaba prejudicando o resultado final dos mesmos.
TEMPLE GRANDIN é, digamos, a cinebiografia de uma mulher portadora de um distúrbio de desenvolvimento incurável: o AUTISMO. Aqui, porém, não há espaço para melancolia gratuita: se o espectador vier a chorar, será de alegria - e não por comoção. Em TEMPLE GRANDIN, ocorre algo, no mínimo, incomum: mesmo não intentando propor uma mensagem edificante, o filme acaba por fazê-lo. E esta característica peculiar resulta, provavelmente, do potencial biográfico da personagem-título.
Diagnosticada como portadora de Autismo por volta dos 4 anos de idade, Temple recebe da mãe (Julia Ormond, ótima) emocionalmente abalada todo o carinho e apoio que esta pode oferecer - na época, muitas das especulações acerca da etiologia do Autismo fundamentavam-se nos estudos do psiquiatra americano Leo Kanner, segundo o qual, o distúrbio originava-se do desinteresse dos pais (da mãe, particularmente) nas relações afetivas da criança. Assim, Temple é encaminhada para um colégio rural, no qual estabelece uma forte relação com um dos professores (David Strathairn, competente como sempre). Aqui, a garota desenvolve todas as suas habilidades latentes e revela-se um fabuloso prodígio.
Repleto de mensagens subliminares (a questão da mulher, por exemplo, que trabalha em ambientes essencialmente masculinos), o filme, em momento algum, desvia-se do foco principal: expor com ternura, exatidão e bom humor (é inspiradora a forma sagaz como Temple lida com sua condição), a história de sua personagem.
Com um elenco de apoio de primeira, TEMPLE GRANDIN conta, ainda, com uma espetacular atuação de Claire Danes - merecedora de uma indicação ao OSCAR; na verdade, a atriz só não foi indicada porque este filme foi feito exclusivamente para a TV (para o canal HBO, mais precisamente). Quando perguntada sobre a performance de Claire, em entrevista concedida no tapete vermelho da cerimônia do recente Globo de Ouro (na qual Danes foi premiada como melhor atriz em minissérie ou telefilme), a própria Temple Grandin disse: 'She became me.'
Uma personagem memorável com uma bela história de vida interpretada por uma atriz inspiradíssima. Resultado: um filmaço.
Direção: Mick Johnson.
Com: Claire Danes, Catherine O´Hara, Julia Ormond, David Strathairn, Charles Baker. 108 min.
Geralmente, as histórias sobre pessoas bem-sucedidas em ambientes completamente desfavoráveis rendem bons filmes. Alguns deles, no entanto, acabam apelando para um sentimentalismo excessivo, o que acaba prejudicando o resultado final dos mesmos.
TEMPLE GRANDIN é, digamos, a cinebiografia de uma mulher portadora de um distúrbio de desenvolvimento incurável: o AUTISMO. Aqui, porém, não há espaço para melancolia gratuita: se o espectador vier a chorar, será de alegria - e não por comoção. Em TEMPLE GRANDIN, ocorre algo, no mínimo, incomum: mesmo não intentando propor uma mensagem edificante, o filme acaba por fazê-lo. E esta característica peculiar resulta, provavelmente, do potencial biográfico da personagem-título.
Diagnosticada como portadora de Autismo por volta dos 4 anos de idade, Temple recebe da mãe (Julia Ormond, ótima) emocionalmente abalada todo o carinho e apoio que esta pode oferecer - na época, muitas das especulações acerca da etiologia do Autismo fundamentavam-se nos estudos do psiquiatra americano Leo Kanner, segundo o qual, o distúrbio originava-se do desinteresse dos pais (da mãe, particularmente) nas relações afetivas da criança. Assim, Temple é encaminhada para um colégio rural, no qual estabelece uma forte relação com um dos professores (David Strathairn, competente como sempre). Aqui, a garota desenvolve todas as suas habilidades latentes e revela-se um fabuloso prodígio.
Repleto de mensagens subliminares (a questão da mulher, por exemplo, que trabalha em ambientes essencialmente masculinos), o filme, em momento algum, desvia-se do foco principal: expor com ternura, exatidão e bom humor (é inspiradora a forma sagaz como Temple lida com sua condição), a história de sua personagem.
Com um elenco de apoio de primeira, TEMPLE GRANDIN conta, ainda, com uma espetacular atuação de Claire Danes - merecedora de uma indicação ao OSCAR; na verdade, a atriz só não foi indicada porque este filme foi feito exclusivamente para a TV (para o canal HBO, mais precisamente). Quando perguntada sobre a performance de Claire, em entrevista concedida no tapete vermelho da cerimônia do recente Globo de Ouro (na qual Danes foi premiada como melhor atriz em minissérie ou telefilme), a própria Temple Grandin disse: 'She became me.'
Uma personagem memorável com uma bela história de vida interpretada por uma atriz inspiradíssima. Resultado: um filmaço.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Crítica do dia!
PARQUE DO DIABO (Devil´s Playground, Inglaterra, 2010).
Direção: Mark McQueen.
Com: Craig Fairbrass, Craig Conway, MyAnna Buring, Lisa McAllister, Danny Dyer, Jaime Murray. 93 min.
George Romero é, digamos, 'o pai dos filmes de mortos-vivos'. Sob sua batuta, a temática zumbi ganhou, entre outras coisas, um interessante poder metafórico: em algumas de suas produções, por exemplo, o cultuado cineasta criticava, através de sutis alegorias, o supérfluo consumismo americano. Com o sucesso das fitas de Romero, os mortos-vivos tornaram-se uma constante no cinema de Horror, e, atualmente, as grotescas criaturas estão presentes nos diversos tipos de mídia: das HQS à TV - o bom seriado THE WALKING DEAD, por exemplo, é adaptado da graphic novel de Robert Kirkman.
De um modo geral, pode-se dizer que os zumbis têm um aspecto comum: a locomoção em banho-maria. Atualmente, no entanto, algumas produções optaram por subverter o gênero e resolveram dar um pouco de mais de vitalidade aos 'comedores de cérebros'. Em algumas situações, funcionou muito bem: é o caso, por exemplo, da bacaníssima cena de ZUMBILÂNDIA na qual um gordinho foge desesperadamente de um morto-vivo.
Embora neste PARQUE DO DIABO as aberrações não sejam zumbis (tecnicamente falando), a revolução chegou ao extremo: algumas das criaturas são verdadeiros ninjas. E, pra um filme que se leva a sério (até demais, diga-se de passagem), mortos-vivos experts em PARKOUR não caem bem. Em tempo: o Parkour é uma modalidade de atividade física que exige do praticante habilidade e destreza descomunais - digite 'Parkour' no You Tube, veja alguns vídeos e entenderá.
PARQUE DO DIABO desenvolve-se segundo a óbvia premissa do medicamento que produz em seus usuários graves efeitos colaterais; apenas um, dentre os 30000 integrantes do programa de testes do RAK-295, não exibe os sintomas. Daí, a empresa idealizadora do tal remédio designa seu chefe de segurança para a seguinte missão: encontrar o usuário imune.
Insistindo em lançar dramaticidade sobre os seus personagens, PARQUE DO DIABO acaba apelando para enfadonhas sequências sentimentalóides (a discussão no carro sobre um acidente envolvendo um ex-policial e um adolescente, por exemplo). Mas, pra falar a verdade, o filme todo é maçante. Não há sequer uma cena digna de nota. Portanto, não assista. Nem mesmo se você não tiver outra opção. Aliás, uma boa opção é ver os vídeos de Parkour no You Tube...
Direção: Mark McQueen.
Com: Craig Fairbrass, Craig Conway, MyAnna Buring, Lisa McAllister, Danny Dyer, Jaime Murray. 93 min.
George Romero é, digamos, 'o pai dos filmes de mortos-vivos'. Sob sua batuta, a temática zumbi ganhou, entre outras coisas, um interessante poder metafórico: em algumas de suas produções, por exemplo, o cultuado cineasta criticava, através de sutis alegorias, o supérfluo consumismo americano. Com o sucesso das fitas de Romero, os mortos-vivos tornaram-se uma constante no cinema de Horror, e, atualmente, as grotescas criaturas estão presentes nos diversos tipos de mídia: das HQS à TV - o bom seriado THE WALKING DEAD, por exemplo, é adaptado da graphic novel de Robert Kirkman.
De um modo geral, pode-se dizer que os zumbis têm um aspecto comum: a locomoção em banho-maria. Atualmente, no entanto, algumas produções optaram por subverter o gênero e resolveram dar um pouco de mais de vitalidade aos 'comedores de cérebros'. Em algumas situações, funcionou muito bem: é o caso, por exemplo, da bacaníssima cena de ZUMBILÂNDIA na qual um gordinho foge desesperadamente de um morto-vivo.
Embora neste PARQUE DO DIABO as aberrações não sejam zumbis (tecnicamente falando), a revolução chegou ao extremo: algumas das criaturas são verdadeiros ninjas. E, pra um filme que se leva a sério (até demais, diga-se de passagem), mortos-vivos experts em PARKOUR não caem bem. Em tempo: o Parkour é uma modalidade de atividade física que exige do praticante habilidade e destreza descomunais - digite 'Parkour' no You Tube, veja alguns vídeos e entenderá.
PARQUE DO DIABO desenvolve-se segundo a óbvia premissa do medicamento que produz em seus usuários graves efeitos colaterais; apenas um, dentre os 30000 integrantes do programa de testes do RAK-295, não exibe os sintomas. Daí, a empresa idealizadora do tal remédio designa seu chefe de segurança para a seguinte missão: encontrar o usuário imune.
Insistindo em lançar dramaticidade sobre os seus personagens, PARQUE DO DIABO acaba apelando para enfadonhas sequências sentimentalóides (a discussão no carro sobre um acidente envolvendo um ex-policial e um adolescente, por exemplo). Mas, pra falar a verdade, o filme todo é maçante. Não há sequer uma cena digna de nota. Portanto, não assista. Nem mesmo se você não tiver outra opção. Aliás, uma boa opção é ver os vídeos de Parkour no You Tube...
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Crítica do dia!
LUNAR (Moon, Inglaterra, 2009).
Direção: Duncan Jones.
Com: Sam Rockwell, Kevin Spacey (dublagem do computador GERTY), Dominique McElligott, Rosie Shaw. 97 min.
A ficção científica talvez seja o gênero cinematográfico mais profícuo em relação ao estímulo à reflexão. Filmes como DISTRITO 9, por exemplo, geram uma série de questionamentos e incitam discussões sobre os mais variados assuntos; algumas delas um tanto profundas.
Embora desprovido de sequências adrenalinescas como as presentes na produção supracitada, LUNAR é um arquétipo dos chamados 'filmes-cabeça'. Mais: aqui, a ficção confunde-se com a realidade, dada a estreita relação entre a trama e diversas temáticas contemporâneas.
Sam Bell (Sam Rockwell) é o operador da base de mineração lunar Sarang - que, em coreano, significa amor. Sua tarefa primordial é a seguinte: coletar e enviar à Terra amostras de Hélio-3, um raríssimo elemento químico e peça-chave para a solução da crise energética terrestre - há, aqui, todo um embasamento científico: o Hélio-3 é um subproduto das reações nucleares ocorridas no Sol; as partículas solares, ao colidirem com a superfície lunar, depositam-se na mesma (como comprovação, alguns integrantes das missões do Projeto APOLLO trouxeram para a Terra rochas espaciais); contendo uma grande quantidade de energia solar acumulada, o Hélio-3 seria a saída ecologicamente correta para o problema do Aquecimento Global, por exemplo. Pra se ter uma idéia, segundo estimativas, o solo lunar poderia abastecer a Terra durante 100 séculos. Há três anos na Lua, Sam está prestes a encerrar seu contrato de trabalho e retornar à Terra. Mas, obviamente, as coisas não serão tão simples assim.
LUNAR é o tipo de filme do qual quanto menos se falar, melhor. O roteiro, co-escrito pelo diretor estreante Duncan Jones (filho de David Bowie), proporciona um desenvolvimento gradativo, e, a cada cinco minutos, uma nova surpresa emerge na tela. O que não é surpresa, porém, é o talento de Sam Rockwell: costumeiro 'ladrão de cenas' (o cara está impagável, por exemplo, em À ESPERA DE UM MILAGRE), o ator já merecia, como protagonista, uma produção desta categoria em seu currículo.
Com um modesto orçamento de 5 milhões de dólares, LUNAR, ainda assim, não decepciona no quesito 'efeitos especiais': beneficiadas pelo hodierno barateamento de custos com computação gráfica, as sequências em solo lunar são muito bacanas. E, caso não fossem, não faria muita diferença: a essência do filme reside em sua idéia, original e muito bem executada. Imperdível.
Direção: Duncan Jones.
Com: Sam Rockwell, Kevin Spacey (dublagem do computador GERTY), Dominique McElligott, Rosie Shaw. 97 min.
A ficção científica talvez seja o gênero cinematográfico mais profícuo em relação ao estímulo à reflexão. Filmes como DISTRITO 9, por exemplo, geram uma série de questionamentos e incitam discussões sobre os mais variados assuntos; algumas delas um tanto profundas.
Embora desprovido de sequências adrenalinescas como as presentes na produção supracitada, LUNAR é um arquétipo dos chamados 'filmes-cabeça'. Mais: aqui, a ficção confunde-se com a realidade, dada a estreita relação entre a trama e diversas temáticas contemporâneas.
Sam Bell (Sam Rockwell) é o operador da base de mineração lunar Sarang - que, em coreano, significa amor. Sua tarefa primordial é a seguinte: coletar e enviar à Terra amostras de Hélio-3, um raríssimo elemento químico e peça-chave para a solução da crise energética terrestre - há, aqui, todo um embasamento científico: o Hélio-3 é um subproduto das reações nucleares ocorridas no Sol; as partículas solares, ao colidirem com a superfície lunar, depositam-se na mesma (como comprovação, alguns integrantes das missões do Projeto APOLLO trouxeram para a Terra rochas espaciais); contendo uma grande quantidade de energia solar acumulada, o Hélio-3 seria a saída ecologicamente correta para o problema do Aquecimento Global, por exemplo. Pra se ter uma idéia, segundo estimativas, o solo lunar poderia abastecer a Terra durante 100 séculos. Há três anos na Lua, Sam está prestes a encerrar seu contrato de trabalho e retornar à Terra. Mas, obviamente, as coisas não serão tão simples assim.
LUNAR é o tipo de filme do qual quanto menos se falar, melhor. O roteiro, co-escrito pelo diretor estreante Duncan Jones (filho de David Bowie), proporciona um desenvolvimento gradativo, e, a cada cinco minutos, uma nova surpresa emerge na tela. O que não é surpresa, porém, é o talento de Sam Rockwell: costumeiro 'ladrão de cenas' (o cara está impagável, por exemplo, em À ESPERA DE UM MILAGRE), o ator já merecia, como protagonista, uma produção desta categoria em seu currículo.
Com um modesto orçamento de 5 milhões de dólares, LUNAR, ainda assim, não decepciona no quesito 'efeitos especiais': beneficiadas pelo hodierno barateamento de custos com computação gráfica, as sequências em solo lunar são muito bacanas. E, caso não fossem, não faria muita diferença: a essência do filme reside em sua idéia, original e muito bem executada. Imperdível.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Crítica do dia!
DEIXA ELA ENTRAR (Låt den rätte komma in, Suécia, 2007).
Direção: Tomas Alfredson.
Com: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg. 115min.
Durante uma entrevista, o diretor Tomas Alfredson disse: 'Fazer Cinema é muito sobre não mostrar as coisas na tela.' Neste DEIXA ELA ENTRAR, o cineasta mostra-se fiel à sua ideologia; que fique bem claro: isto não é, de forma alguma, algo depreciativo. Muito pelo contrário. Ao optar pelo caminho artístico, DEIXA ELA ENTRAR torna-se um filme de Horror não convencional; o exotismo, por assim dizer, permeia toda a obra. O maior indício disto é, obviamente, o roteiro - elaborado por John Ajvide Lindqvist, autor do livro homônimo (publicado em 2004) do qual o filme é adaptado -, que, por sua vez, trata, de modo peculiar (e não menos sombrio), a temática vampiresca.
Em DEIXA ELA ENTRAR, acompanhamos o florescer de uma inusitada relação romântica entre o garoto OSKAR e a vampira ELI. O menino é vítima de bullying na escola e não faz idéia de como lidar com a situação - exceto pelas encenações de possíveis retaliações; ela, por sua vez, não hesita em assassinar - isto quando o seu (digamos) vassalo falha no cumprimento de suas obrigações.
À primeira vista, o mote pode parecer habitual. Não é. Tal constatação resulta do seguinte: DEIXA ELA ENTRAR não apela para explicações fáceis. Tome o pai de Oskar, por exemplo. Você pode indagar: 'Qual a contribuição das cenas entre pai e filho para a trama principal?' Não será fácil responder à pergunta acima, mas, acredite, a resposta está lá. Mais: o próprio título do filme é enigmático. Contudo, por não ser nenhum SPOILER, explico: há controvérsias, mas, segundo as lendas, a casa de um indivíduo é protegida por seu anjo da guarda; vampiro algum tem poder para derrotar um anjo. Assim, se alguém convida um vampiro para adentrar em sua residência, utilizando, portanto, seu livre arbítrio, as divinas criaturas não poderiam intervir.
Fantasias à parte, é possível identificar, ainda, situações cotidianas rotineiras (o que acarreta uma vinculação do filme com a realidade - algo sempre positivo em produções de terror): a auto-confiança de Oskar para vingar-se de seus opressores é, por exemplo, consequência imediata do relacionamento com Eli (afinal de contas, quem não se sente o dono do mundo quando está apaixonado? Leonardo DiCaprio que o diga...).
Apesar da nítida preocupação com a parte dramática, DEIXA ELA ENTRAR não economiza no sangue quando o momento é oportuno; há, pelo menos, duas sequências memoráveis: a queda do corpo do sétimo andar do hospital (simples, mas muito bem filmada) e o desfecho, perturbador e sangrento.
Direção: Tomas Alfredson.
Com: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg. 115min.
Durante uma entrevista, o diretor Tomas Alfredson disse: 'Fazer Cinema é muito sobre não mostrar as coisas na tela.' Neste DEIXA ELA ENTRAR, o cineasta mostra-se fiel à sua ideologia; que fique bem claro: isto não é, de forma alguma, algo depreciativo. Muito pelo contrário. Ao optar pelo caminho artístico, DEIXA ELA ENTRAR torna-se um filme de Horror não convencional; o exotismo, por assim dizer, permeia toda a obra. O maior indício disto é, obviamente, o roteiro - elaborado por John Ajvide Lindqvist, autor do livro homônimo (publicado em 2004) do qual o filme é adaptado -, que, por sua vez, trata, de modo peculiar (e não menos sombrio), a temática vampiresca.
Em DEIXA ELA ENTRAR, acompanhamos o florescer de uma inusitada relação romântica entre o garoto OSKAR e a vampira ELI. O menino é vítima de bullying na escola e não faz idéia de como lidar com a situação - exceto pelas encenações de possíveis retaliações; ela, por sua vez, não hesita em assassinar - isto quando o seu (digamos) vassalo falha no cumprimento de suas obrigações.
À primeira vista, o mote pode parecer habitual. Não é. Tal constatação resulta do seguinte: DEIXA ELA ENTRAR não apela para explicações fáceis. Tome o pai de Oskar, por exemplo. Você pode indagar: 'Qual a contribuição das cenas entre pai e filho para a trama principal?' Não será fácil responder à pergunta acima, mas, acredite, a resposta está lá. Mais: o próprio título do filme é enigmático. Contudo, por não ser nenhum SPOILER, explico: há controvérsias, mas, segundo as lendas, a casa de um indivíduo é protegida por seu anjo da guarda; vampiro algum tem poder para derrotar um anjo. Assim, se alguém convida um vampiro para adentrar em sua residência, utilizando, portanto, seu livre arbítrio, as divinas criaturas não poderiam intervir.
Fantasias à parte, é possível identificar, ainda, situações cotidianas rotineiras (o que acarreta uma vinculação do filme com a realidade - algo sempre positivo em produções de terror): a auto-confiança de Oskar para vingar-se de seus opressores é, por exemplo, consequência imediata do relacionamento com Eli (afinal de contas, quem não se sente o dono do mundo quando está apaixonado? Leonardo DiCaprio que o diga...).
Apesar da nítida preocupação com a parte dramática, DEIXA ELA ENTRAR não economiza no sangue quando o momento é oportuno; há, pelo menos, duas sequências memoráveis: a queda do corpo do sétimo andar do hospital (simples, mas muito bem filmada) e o desfecho, perturbador e sangrento.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Crítica do dia!
Direção: Colin e Greg Strause.
Com: Eric Balfour, Donald Faison, David Zayas, Scottie Thompson, Brittany Daniel, Crystal Reed. 94 min.
Filmes com a temática 'extraterrestres atacam a Terra' produzem, geralmente, resultados interessantes. Infelizmente, não é o caso deste SKYLINE. Aqui, como de costume em produções do gênero, a trama é simples: um grupo de amigos resistindo às ofensivas alienígenas; os efeitos especiais, por sua vez, são complexos e dignos de nota - a HYDRAULX, empresa responsável pela parte digital (e da qual são sócios os irmãos Strause), colaborou, por exemplo, com os blockbusters 'O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON' e 'AVATAR'. Porém, nem só de tecnicismo vive o Cinema: direcionando todas as atenções para o apuro gráfico-visual - pra ter-se uma idéia, o filme foi rodado num condomínio onde mora um dos diretores, tamanha era a preocupação em priorizar os custos com efeitos -, SKYLINE relega componentes cinematográficas vitais. Uma destas, claro, é o roteiro. E, por desprezar este item tão precioso, SKYLINE sucumbe.A sequência de abertura, na qual as misteriosas luzes azuis 'caem' sobre Los Angeles é instigante e auspiciosa; a excitação, no entanto, é efêmera: logo em seguida, tudo parece não passar de uma grande futilidade. Os personagens são completamente desprovidos de qualquer histórico e isto inviabiliza a identificação do público com os mesmos. Resultado: Se Jarrod (Eric Balfour, o Marcos Mion ianque) vier a falecer, por exemplo, você não dará a mínima.
Com um orçamento de 10 milhões de dólares, SKYLINE foi um fracasso de bilheteria, e, nos EUA, sequer foi exibido para a crítica especializada. Para finalizar, uma paráfrase do cartaz acima: 'Don´t Watch!'.
Assinar:
Postagens (Atom)













